sábado, 2 de maio de 2009

O Milagre



As luzes do quarto foram acesas. Os passos ráídos já foram suficientes para
despertar Álvaro Neto de seu sono tranquilo.
__ Álvaro_ a mão encosta no seu ombro e a voz o faz acordar de vez__ tem uma
mulher na sala de parto, com dilatação 8.Dilatação 8 está em uma escala de 0 a 10 onde 0 o colo do útero está fechado e 10 pronto para o nascimento.
__ To levantando.
Álvaro passa a mão no bolso tira um chiclete. Enquanto lava o rosto, tenta
se encontrar naquele quarto em penumbra. Olha no relógio.
__ Parto às três da manhã__ coça a cabeça__ sacanagem!
Fecha a porta do quarto e vai para a sala de parto que fica a uns 50 metros do quarto da Enfermagem.
Estavam duas técnicas de Enfermagem mais a plantonista da clínica. Cidade do interior as pessoas estão acostumadas em ter parto normal. Apesar de todo o lado positivo e das campanhas do governo, Álvaro sempre achou que ali não tinha nada de normal.
__ É anormal uma criança tão grande sair por um lugar tão pequeno__ sem
pre dizia isso em todos os partos.
__ Faz força vamos lá, já fiz o corte para te ajudar_ dizia a médica com a
paciente já posicionada na mesa.
__ Ai..ta doendo muito.
Dezesseis anos é uma idade boa para começar a descobrir o mundo, Escolher uma profissão e não esta as três da manhã com as pernas abertas pronta para ter o seu segundo filho.
___ Vai ..vai já esta com a cabeça para fora.
A dor imensa fez a jovem desmaiar. O desespero na pequena sala de parto foi geral.
Tapa no rosto. Água gelada. Até que com uma última força, a jovem conseguiu
expelir a criança.
Sem nenhuma dúvida a médica disse.
__ Feto morto!
A criança agora nos braços de Álvaro, sem vida e junto ali todo um trauma que Álvaro carregava por toda sua carreira. Medo de ter que lidar com a vida de uma criança. Aquele ser tão pequeno e frágil. Arrepio.
__ Vamos aspirar_ dizia Álvaro
__ Aspirar para quê?__ disse a técnica virando o corpo e pedindo para a avó da criança sair da sala__ não ouviu a médica dizer?
Álvaro sem saber o porquê, manteve o procedimento. Iniciou a manobra de
ressuscitação com seu dedo polegar. Apertava o minúsculo peito da criança com toda
sua força mental. Seu espírito evocava o retorno daquela alma. Álvaro não parava.
__ A placenta já saiu__ dizia a médica__ inteira!
Todos já ajeitavam a sala. Arrumavam aquela bagunça. Uma técnica já tinha voltado para o quarto.Poderia descansar mais um pouco. A médica arruma sua roupa, tirando o
avental de cima. Quando um choro paralisou todos na sala.
__ Ta viva__ dizia Álvaro__ ta viva Porra!
Todos correram para a criança. Ele já tinha aspirado e mantinha a massagem. Agora levou até o berço aquecido e deixou no oxigénio. A cor de roxa transformava-se em rosa.
Todos ali voltavam-se à criança, e a vida ressurgia naquele corpo. Dali, todos tiveram duas certezas sobre a vida:
Só acaba quando termina.
Só Deus diz quando termina.

2 comentários:

  1. LINDO ESSE ARTIGO , FAZ-ME LEMBRAR DA DURA REALIDADE DO HOSPITAL ONDE TRABALHO. MAS A FRASE FINAL DIZ TUDO!!!
    Só acaba quando termina.
    Só Deus diz quando termina.

    VANESSA BRAGA

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  2. Rômulo Carriello8 de maio de 2009 17:05

    Espetacular, cada profissinal de saúde deve refletir baseado no exposto, ficamos muito frios diante da morte algumas vezes, fazendo papel de Deus, ou seja, dizer quando tudo termina, por vezes tão precocemente.

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